
Este post parte de uma palestra apresentada na 1ª Jornada de Saúde Mental da CASSI – SP, um encontro voltado à discussão de práticas clínicas e desafios contemporâneos da psiquiatria.
A psiquiatria deixou de ser um campo restrito ao consultório e passou a ocupar o cotidiano. Termos como “ansiedade”, “TDAH”, “TOC”, “bipolaridade” e “borderline” circulam nas redes sociais, em conversas informais e na mídia. Isso ampliou o debate sobre saúde mental, mas também tornou mais desafiador diferenciar sofrimento humano de quadros clínicos propriamente ditos.
Vivemos um momento em que a cultura transforma experiências psíquicas complexas em narrativas envolventes. Filmes, séries e conteúdos digitais moldam a forma como passamos a nos perceber. Personagens viram referência, e diagnósticos, por vezes, passam a funcionar como identidade.
Esse fenômeno tem dois lados. Por um lado, contribui para reduzir estigmas e abrir espaço para conversas importantes. Por outro, pode levar à simplificação excessiva, à banalização de termos técnicos e à tendência de autoidentificação acrítica. O risco central está na confusão entre o que faz parte da experiência humana e o que configura um transtorno mental.
O cinema ilustra bem essa dinâmica. Em Trainspotting (1996), a dependência química é apresentada com uma estética que mistura prazer e destruição, criando uma ambiguidade potente. Em Clube da Luta (1999), questões como identidade, vazio existencial e dissociação aparecem de forma simbólica e provocativa, mas não literal. Já em Fragmentado (2016), o transtorno dissociativo de identidade é transformado em espetáculo, com distorções marcantes. Na primeira temporada de 13 Reasons Why (2017), o debate sobre suicídio ganhou escala global, ao mesmo tempo em que levantou preocupações legítimas sobre romantização e efeito de contágio.
A cultura pop amplia o alcance das ideias da psiquiatria e ajuda a nomear diferentes formas de sofrimento. Mas também transforma experiências complexas em histórias fáceis de consumir, e, às vezes, de mimetizar. Nem tudo que funciona bem em uma narrativa corresponde ao que vemos na prática clínica.
No consultório, o trabalho é justamente fazer essa distinção com cuidado: entender a singularidade de cada pessoa, sem reduzir a experiência a rótulos, mas também sem negligenciar quando há, de fato, um quadro que se beneficia de um diagnóstico preciso e tratamento bem fundamentado.
Se você se reconhece em alguma obra artística ou conteúdo de mídia ou redes sociais, isso pode ser um ponto de partida. A avaliação de um profissional qualificado continua sendo insubstituível.


















